• Confraria Da Folia

80 anos de azul e branco na avenida em 2020

Bambas da Orgia levará sua história como enredo no próximo carnaval. Foto: Fábio Cruz/TMJ


Bambas da Orgia em 2019. Foto: Fábio Cruz/TMJ

O primeiro enredo do Grupo Ouro de 2020 já foi lançado. Bambas da Orgia, a mais antiga escola de samba de Porto Alegre, anunciou o enredo "Eu Sou Passado, Eu Sou Presente, Eu Sou Futuro... Saudade, Quem É que Não Tem?", que contará a sua trajetória de 80 anos. Pelo segundo ano, o enredo da azul e branco é assinado pelo temista Pedro Linhares, que falou com a gente sobre a preparação da escola para o próximo carnaval.


Ele conta que a escola, tão logo passado o carnaval de 2019, se reuniu para construir um novo modelo de trabalho para o próximo ano. "Nos reunimos, revisamos todos os pontos de oportunidades e criamos um calendário da criação do carnaval para manter um planejamento mais à risca", conta Linhares. O temista salienta que este novo momento na escola é uma retomada em busca dos grandes carnavais que a azul e branco já realizou e que mantém sua história.


Embora a comunidade já aguardasse enredo sobre as oito décadas de história, Pedro conta que buscou um outro caminho para fugir do lugar-comum dos enredos de auto homenagem. "Eu acabei buscando inspiração em algo que praticamente todas as pessoas que eu entrevistei falaram. Elas tocavam sempre na saudade. É a partir desta saudade que eu construí a narrativa". Ele se mostra feliz e ciente da responsabilidade de colocar um enredo de tamanha expectativa na avenida. "Fazer um enredo em qualquer outra escola do país já é uma responsabilidade e tanto. Escrever um enredo na escola da gente e conseguir inserir pontos de criação que tenham o nosso perfil é muito gratificante. Eu estou muito realizado com o trabalho", destaca.


Disputa de samba já tem calendário


A escola já abriu o prazo para inscrições para a escolha do samba enredo. Interessados devem enviar a ficha cadastral via e-mail para um dos endereços: walmiroliveira12@hotmail.com ou elainesilvabrito829@gmail.com ou preencher direto na

quadra da escola, aos sábados, até o dia 27/07.


Os sambas inscritos passarão por uma audição interna no dia 30/07, para selecionar aqueles que irão para a etapa seguinte de apresentações na quadra. As eliminatórias estão programadas para os dias 08 e 15 de agosto. A grande final está marcada o dia 22/08. Os links da ficha técnica e do regulamento você confere ao final da matéria. A seguir, leia a sinopse do Bambas para o próximo carnaval.



“Eu sou passado, eu sou presente, eu sou futuro. Saudade... Quem é que não tem?”


No mês de Maio, sete dias antes de celebrarmos na senzala o início de uma jornada para a liberdade, o coração sábio do velho griô palpitava – havia tempo para uma história. Ao acender o cachimbo, a mão dirige-se ao peito, que é o local onde guardara esta revelação. Escuta só o que vou te contar...


Nada pode ser maior. Nem o tempo, nem o espaço. A “Razão Maior” de ser é ultrajar a barreira do finito. O “pra sempre” sempre acaba, mas o amor ágape, intangível e imortal não há quem apague. Sou passado, sou presente e sou futuro! Bailo no tempo, voo por imensidões desta terra. Toco em tantas histórias, mundos e vidas... Até tocar, com as asas, a sua pele... A emoção da águia sentida da cabeça aos pés! Ao soar da sirene, o coração azul e branco pulsa forte, bate no compasso do “Trovão”. Ao perguntar seu nome, obtive três respostas...


I - “Eu sou o passado”


Fecho os olhos e deixo a lágrima rolar...Sinto saudades de quando somente a diversão imperava na folia do velho Porto dos Casais. Lança-perfume deixa marca no ar,meu amor! De cortejo em cortejo, colori a cidade. Era confete, serpentina para tudo que é lado, que felicidade!


O luxo não estava em tecidos caros ou efeitos brilhantes. Eram de carne, osso e espírito: o próprio carnavalesco dava vida a trupe momesca através dos figurões pierrô, arlequim e colombina – estava formado o reinado de Momo, do Rei do povo. Palhaços, balões pelos ares e sorrisos fáceis completavam o festejo dos corsos e das Grandes Sociedades.


Negros, mestiços e brancos brincavam juntos pela boemia, no Areal e na Colônia Africana...O Xis do Problema, Divertidos e Atravessados, Democratas, Aratimbó, Aí Vem a Marinha, Trevo de Ouro, Comandos do Morro, Namorados da Lua... Engraçados, por vezes matutos, pomposos quando deveriam de ser... Tô Com a Vela, Canela de Zebu, Te Arremanga e Vem, Saímos sem querer, Tira o dedo do pudim...Eram nomes de renome que Porto Alegre viu crescer.

De cara pintada, trazendo o clamor indígena para a festa popular – lendas e magias se misturavam à tradição deste lugar. Eram os Caetés, pioneira tribo a levar o folclore ritual para os coretos nos dias de desfile. Ah, como era bom e sabíamos o que era alegria! -Bambas da Orgia! Estava escolhido o nome na tradicional residência dos Vargas, no Bairro da Santana – palco de memoráveis carnavais.


O Rio Grande era o símbolo maior nos festejos de outrora. Chegar em casa cantando “cadê meu bem?” O dia já vem raiando a aurora... Saudosas décadas da belas damas inaugurando a avenida, dos fraques dos guris no filão. Eram anos dourados e íamos além da força da natureza, que beleza! Era o Bamba do chinês, do turco, do Mandrake! Salve o Carnaval!


II - “Eu sou o presente”


Pra deixar saudade, temos que ser presentes. Saudade é um presente. E o tempo, agora, se transforma em saudade do que sempre fui – do que sou. Sou o esplendor de quem usou casaca e cartola em plena Avenida João Pessoa, transformando a passarela em palcos de uma Broadway brasileira. Sou o afilhado glorioso de uma Portela, tão bela, deslumbrante Águia.


Sou o sonho de criança que não quer acordar, preferindo o mundo em ilusão para assistir a vida de um carrossel a girar. Como é doce ser criança e poder imaginar! Sou o mundo colorido e musicado, genial de um Brasil tropical – Alô, alô, saudade sem igual! Sou irreverente, desfilo alegremente! Contesto a palhaçada, não aquela jocosa, do circo e da marmelada – mas da trapalhada sem fim do Paraíso Tupiniquim.


Sou negro, sou quimbundo, africa’mor que bate mais forte, sou o sonho de Zumbi. Sou a alegria extravasada do samba do povão – sou Bamba, de refrão em refrão por Brasil a fora... Sou a fé devotada no xirê! Lalupo, lalupo, alupo Bará! Caminhos abertos para a Nação Yorubá. Adupé, yá mi Odoyá! Epaô Babá, Oxalá! Os Bambas fazem a festa em homenagem aos orixás!


Sou magia, sou cultura, a riqueza da alquimia e da fartura de grandes banquetes palacianos. Sou Bambas da Orgia e ninguém vai me derrubar! O Bamba é minha paixão!Brilha como ouro, haja coração! Sou a sorte, que de um pequenino grão de areia dá a volta por cima e banca o jogo, me fazendo um devaneio em azul e branco, num céu do Olimpo e do mar da mais pura poesia. Sou a maior e mais linda história de amor, a verdadeira joia rara, especiaria de valor inestimável! Em seus braços sublimo rumo ao infinito, rogando as bençãos dos deuses e do tempo.


III - “Eu sou o futuro”


E futuro, como vejo? Com saudade! Saudade dos sonhos que criei... Das histórias que sonhei...Dos versos que cantei...Saudade que torna a voltar, lembranças que me trazem a vida! O tempo que proporciona viagens pelo mundo sideral, num universo de possibilidades – o multiverso da orgia. Encontrar estrelas ao lado dos deuses do samba, dos bambistas; antes na avenida, agora nos iluminam e nos trazem a paz. A vida que vai tão efêmera e volta do infinito, num bonito canto pelos ecos do tempo...


E das crianças, ouço um novo cantar... A semente é jogada e o brilho no olhar se renova nos meus Bambas do Futuro!Canta, meu Bambas do Futuro! Reviva o Bamba do Força e Luz, das multidões até o dia amanhecer! Do bailar de tuas Estandartes surjam novos amores, edificando novas Oniras e Roses!


E no trovejar da batucada, que escuto desde as saudosas domingueiras do Salão Rui Barbosa, reverbere em notas musicais de celebração a Tio Ciro,Tio Guaraci Cambista, Tio Marino e todos os nossos Doutores em Carnaval. Celebre a maestria do cortejo do nosso pavilhão empunhado por tantos casais, como Ligia e Fiapo.


Novos magos da arte surjam espelhados por Juarez, Guaracy, Mario Nienov...Vozes marcantes sejam celebradas fazendo-nos crer ser de Jajá ou de Meneca. Que este sonho, tão alto e fascinante, da tradição de Hemetério, Ariovaldo,Alceu Soares, Seu Nenê, Dona Maria Noronha, Cláudio Vieira e tantos outros, unam em uma só família a celebração de sua glória. É a a escola da minha vida na avenida!


Peço licença para dar desfecho, meus filhos, já se faz tarde e está na hora de começar tudo outra vez... Benditas luzes, almas de bondade! Saravá, negritude aguerrida, agora é com vocês. Sob a égide de uma mãe madrinha, a Altaneira de Madureira, iluminai estes novos vôos, traga-nos a magia do desfile campeão!


Não há mágica, mas existe uma forma de tornar tudo isso possível, real e infinito. É com a eternidade. Eternidade alcançada por sempre ser lembrada, por estar gravado no peito e na memória, sendo digno de saudades e... Saudade, quem é que não tem?


Autor: Pedro Linhares


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