• Confraria Da Folia

Abençoados

Empunhar um estandarte e defender um pavilhão vai muito além do que ser um destaque na escola de samba.


Majestades da avenida. Foto: acervo Udesca

*Por Édy Dutra


Neste dia 6 de novembro, Porto Alegre comemora o dia do mestre-sala, porta-bandeira e da porta-estandarte, data em que também aniversaria a filial gaúcha do projeto Padedê do Samba. Criado e coordenado por mestres-salas, portas-bandeiras e portas-estandartes, o Padedê se preocupa em ensinar, formar, preservar e defender a história destes quesitos do nosso carnaval...


Preservar e defender... Talvez, não há definições mais atuais para falar sobre esses quesitos senão essas duas. Afinal de contas, o samba ainda segue ameaçado, esmagado pelo descaso mercadológico, político e social que assola nossa cidade. E, ainda, por vezes, enfrenta dentro de casa as mazelas de sua desvalorização - profissional e histórica.


O estandarte é quem anuncia a escola na avenida. Foto: Correio do Povo.

Mas é inegável que, dentro de uma escola de samba, esse trio é aquele mais cintilante. Abençoados. Dentro do fundamento de uma escola de samba, a bandeira é o símbolo máximo, de respeito, de devoção. Quando o estandarte/pavilhão giram, estão ali espalhando a energia de antepassados, de baluartes, de gente que deu a vida por aquele grupo, de gente que depositou amor num "pedaço de pano" e que acabou criando uma religião... Ora, se o canto de uma escola de samba na avenida ecoa como uma oração, um mantra, nada mais justo do que aqueles que carregam ao longo de todo o percurso o símbolo máximo desta nação cultural serem literalmente abençoados.


Portanto, empunhar um estandarte, defender um pavilhão, vai muito além de ser um destaque na escola de samba. É honra. É respeito. É confiança. E é por isso que eles ficam altivos em seus mastros. A vaidade de quem carrega jamais deve ser maior do que aquele "pedaço de pano" que ele gira, defende e apresenta orgulhoso para o público.

A força desses defensores é tão grande, que muitos marcam seus nomes na história, no asfalto da avenida, na memória dos foliões. Ouso aqui dizer que todo mundo tem guardado com carinho em suas lembranças afetivas aquele casal, aquela estandarte... A presença deles no carnaval transpassa inclusive os limites da quadra da escola de samba, chegando ao nosso convívio. Quantas vezes já não brincamos de ser mestre-sala, de cortejar uma porta-bandeira, de bailar com um estandarte? Na rua, nas festas com os amigos, nas reuniões de família. Aquele cabo de vassoura, um pano na ponta, tios e tias girando, sorrindo, brincando. E por mais que seja uma simples brincadeira, é um reforço de que tais posições são marcantes, de extrema importância e que seus valores precisam ser levados adiante, para os mais novos, para os desconhecidos da nossa cultura, para quem quiser e quem precisa conhecer. Conhecer e respeitar.


Preservar e defender essa cultura. Foto: acervo Padedê do Samba

Quando lá no Rio de Janeiro um mestre de capoeira incorporou seus passos no rancho... Quando o estandarte virou bandeira para ganhar mais agilidade no giro... Quando o estandarte aqui no Sul ganhou morada definitiva e guerreiras imponentes para defendê-lo...


Quando pensamos em tudo isso, enxergamos a história do carnaval. E devemos, sim, nos sentir orgulhosos e honrados de poder conviver com essas figuras ainda hoje, conviver com essa história, com esses seres abençoados. Enquanto houver um pavilhão girando, ainda estaremos honrando nossos antepassados, firmando nosso presente e abrindo espaço para o nosso futuro. Com a benção dos deuses do samba e a garra de seus guerreiros incansáveis.