• Confraria Da Folia

Academicamente Popular

O samba enredo vem ganhando espaço no meio da literatura, sobretudo, dentro da academia.


(*) Por Édy Dutra


O título desta resenha é o mesmo do enredo da São Clemente no carnaval de 2018. "Academicamente Popular" falava sobre os 200 anos da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Aqui, o título me soou oportuno para falar sobre a união entre o samba enredo e a universidade, a academia.


Capa livro. Reprodução.

Faço isso por conta do lançamento do livro "Samba-Enredo: A Poética do Carnaval de Porto Alegre", de autoria de Jackson Raymundo, professor e pesquisador que vem se dedicando a contar sobre o carnaval de Porto Alegre. Em sua nova obra, Raymundo se desdobra sobre quase 40 anos de sambas de enredo do carnaval porto-alegrense (de 1978 à 2014), onde vai descobrir pontos importantes da estrutura, da poética, da presença de elementos épicos e até mesmo a transposição de narrativas - a ligação entre o enredo e o samba. Claro que a história do carnaval não ficaria de fora, pois é dentro desta manifestação cultural que o samba enredo nasce e se fortalece. O lançamento aconteceu na noite dessa sexta, 07, em live realizada pelo Confraria juntamente com o Centre de Estudos e Pesquisas sobre Tema Enredo (CETE) e contou com a participação dos compositores Mamau de Castro e Vinícius Brito. Você pode assistir a live clicando aqui.


Mas volto para essa ligação do popular (samba enredo) com a academia. Em depoimento cedido para a live, o professor e escritor Luís Augusto Fischer - também orientador de Jackson na tese de mestrado que resultou no livro - salienta este movimento da academia em abraçar questões que por muito tempo figuraram fora dos seus olhos curiosos, principalmente na área de Letras. Veja abaixo.



Compartilho da fala de Fischer, ao passo que acrescento o ainda insistente preconceito com a matéria popular, sobretudo ligada à cultura, dentro da academia. Na sociedade, de forma geral, o carnaval ainda é visto como uma festa marginalizada. Pouco consideram a sua potencialidade criativa, cultural, histórica, educacional, estrutural, política e econômica. Estes pontos acabam sendo relegados a algo pejorativo, de baixo valor. Consequentemente, essa percepção também permeia o ambiente acadêmico. Mas esse bloqueio vem sendo furado há algum tempo. De forma mais efetiva e potente, podemos dizer a cerca de 10 anos, talvez. Muito impulsionada pela literatura criada no Rio de Janeiro. E que, convenhamos, começou tardiamente. Uma manifestação cultural quase centenária como o as escolas de samba e seu desfile, demoraram para ter suas histórias, filosofias e criações registradas em livros, artigos e demais trabalhos acadêmicos. E se lá no Rio já foi tardiamente, aqui em Porto Alegre nem se fala...


Mas estamos conseguindo. Aos poucos, pesquisadores apaixonados estão fazendo das suas pesquisas materiais de referência para o nosso carnaval, para a nossa cultura dentro da academia. Além de Jackson Raymundo, cito também Helena Cattani, Ulisses Duarte, Marina Lopes Correa, Ricardo Figueiró Cruz, Ramão Carvalho. E isso é de extrema importância, pois registrar estes feitos - as histórias, o organograma cultural deste movimento - servirá como base para fortalecer ainda mais o olhar sobre o que é cultura popular, sobretudo o carnaval das escolas de samba.


O samba enredo, na maioria das vezes cantado apenas em época de carnaval, hoje é objeto de estudo acadêmico. É livro. É memória. E aos poucos vai se tornando tomando a sala de aula, os simpósios, os congressos. Ele é patrimônio nacional e a sua defesa se dá todos os dias, seja no canto ou na escrita. Que ele siga se tornando academicamente popular.


SOBRE O LIVRO


Samba-Enredo: A Poética do Carnaval de Porto Alegre

Autoria: Jackson Raymundo

Editora: Atena Editora

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