• Confraria Da Folia

Comissão de Frente: valendo?

Num carnaval onde a maior valorização devem ser os quesitos de chão da escola, por que comissão de frente segue não sendo quesito de pontuação?



A discussão já dura anos no carnaval de Porto Alegre. Há quem acredite que comissão de frente já deveria ser quesito de pontuação no desfile da capital. Outros acham avaliar o grupo que abre os desfiles pode onerar as apresentações. Entre outras justificativas, o fato é que a polêmica sempre acontece.


Comissão de frente: o cartão de visita da escola de samba. Foto: GachaZH

Para 2019, o que se tem no ar é que os desfiles sejam valorizados muito mais pelo chão da escola do que pelo seu conjunto visual. Então, se falando em chão da escola, por que comissão de frente, mais uma vez, não será quesito de pontuação nos desfiles? O que poderia ser um diferencial - e até um teste neste carnaval atípico - segue mais uma vez imposto apenas como obrigatoriedade no regulamento, mas não garantindo nota no possível campeonato de suas escolas.


Sendo assim, o Confraria da Folia conversou com alguns coreógrafos do carnaval de Porto Alegre para saber deles sobre essa questão envolvendo a comissão de frente. Eduardo Yohaness (União da Vila do IAPI); Salmo Silva (Imperatriz Dona Leopoldina), Carla Nunes (Embaixadores do Ritmo) e Alexandre Pereira (Bambas da Orgia). Eles responderam as mesmas perguntas e você confere as respostas na íntegra:


CONFRARIA: Qual a maior dificuldade enquanto coreógrafo/coordenador do grupo de comissão de frente?


EDUARDO YOHANESS: São as condições de trabalho. Para ter um bom grupo , é preciso ter boas condições. E isso é difícil aqui.


SALMO SILVA: Estrutura. Hoje vivemos um momento, que o carnaval literalmente está passando , por uma reformulação geral. Até não vejo problemas, como coreógrafo... Mas por parte, da mesmice de enfrentar os mesmos problemas de muitas Escolas de Samba, para com as Comissões de Frente. Falo por nossas experiências, como grupo. Há uma visão unânime que todas Escolas de Samba gostam de uma super comissão de frente, mas pouquíssimos gestores têm uma preocupação com os componentes, dentro de suas Escolas ou fora delas. Antes de sermos Grupo, somos pessoas reais, que possuem problemas e tem suas atribuições, trabalhos , família entre outros. E grande parte, das vezes as Escolas de Samba não dão um suporte mínimo para a Evolução dos Grupos que compõem as Comissões de Frente. Não há um investimento anual das Escolas de Samba para que os componentes evoluam nesse segmento artístico, que unifica dança, teatro, confecções de alegorias e fantasias. A Escola de Samba não oferta nenhuma dessas possibilidades de crescimento para os seus componentes. Acredito que faria muita diferença, no momento atual do nosso Carnaval. Muitos jovens e adultos, e componentes das comissões de frente, que querem buscar um aperfeiçoamento maior nessas áreas, têm que procurar fora do nosso cenário. Qualificação, de nossos coordenadores, coreógrafos e componentes que compõem as Comissões de Frente. Precisamos melhorar, nessas questões, todos os grupos. A evolução é constante. Precisamos acompanhar!


CARLA NUNES: A maior dificuldade é valorização dos nossos bailarinos que dançam no amor. Isso sim dificulta com que tenhamos melhores dançarinos e que consigamos manter eles por anos dançando, sem apoio financeiro fica difícil ter um grupo sólido e coeso.


ALEXANDRE PEREIRA: No meu entendimento acerca da dança, Comissão de Frente e Carnaval, são duas as principais dificuldades. E uma é consequência da outra. A primeira é conseguirmos fazer com que os dirigentes enxerguem Comissão de Frente como investimento. É necessário que eles tenham uma visão mais macro do negócio. Que eles visualizem o quanto é impactante do ponto de vista artístico e visual a apresentação de uma Comissão... Realizar investimentos permite que se tenha matéria-prima mais qualificada e que certamente significará uma boa performance... Este discurso de que a primeira ala a entrar na pista de desfiles, caso volte a ser quesito, torna-se mais oneroso para as escolas, é atestar a falta de capacidade de gerir administrativa e financeiramente uma escola... Consequentemente, torna-se quase impossível descobrir, selecionar e manter, a disposição do coreógrafo e da escola, bailarinos que unam talento e disciplina. Dançarinos gostam de competir. De que serve ensaiar durante horas, meses por semana se qualquer outra ala pode substitui-la a qualquer hora ou momento? Nosso planejamento quanto coreógrafo deve prever uma flexibilidade bem mais acentuado visto que certamente teremos algumas trocas de dançarinos.


CONFRARIA: Comissão de Frente virar quesito de pontuação em Porto Alegre, no atual momento do carnaval, seria positivo? Porto Alegre está preparada para isso?


EDUARDO: Sim é positivo, pois é a valorização do grupo que é o cartão de visita de uma escola. A cidade ainda não está preparada, mas vai se preparando e se aperfeiçoando. Com o tempo, chega no ideal.


SALMO: Porto Alegre, o Rio Grande do Sul é, culturalmente, um celeiro de grandes nomes artísticos do nosso País e do mundo. O que, na minha opinião, ainda não fez com o que Comissão de Frente seja um dos quesitos, são os gestores, que anulam essa possibilidade para não ter um certo comprometimento financeiro com esse setor, que é o avatar de qualquer desfile de Escola de Samba. Nas cidades dormitórias de nossa Capital, país e nos países que também cultuam o desfile de Escolas de Samba, são quesito. (os dirigentes) Não respeitam toda luta dos componentes que se dedicam, abdicando muitas vezes de outros afazeres para trabalhar em prol da cultura popular, muitas das vezes sem o mínimo de incentivo, passagens, lanches, cachês. Mas ensaiando por muitas horas, por gostarem do que fazemos juntos e dar o melhor para o público, contribuindo e muito com a Escola de Samba. Tudo é adaptação. Buscando melhorias para adequarmos uma formatação de julgamento adequado e com jurados que conheçam o mínimo de expressão corporal, arte cênica, e tenham o conhecimento do qual é o real papel da comissão de frente no desfile. Para fazerem um julgamento imparcial, somente pautando o que descrimina (o que representa a comissão de frente dentro do organograma de desfile de cada Escola). A história começa ser contada a partir da entrada da Comissão de Frente em desfile. O dia que todos os grupos se unirem e não entrarem em desfile, talvez darão valor. Mas primeiro, os grupos tem que fazerem suas análises também, e pensar com a cabeça, qual a é a estrutura ideal para nós todos? A que desejo, para o nosso Grupo, começa por respeito,estrutura e valorização (não somente monetário, de investimentos) mas pelo reconhecimento da nossa contribuição com a Cultura Popular. E no momento atual, do nosso Carnaval seria uma boa alternativa. Mas daí penso: Quando tivemos condições, não fizeram. Imagina agora? Mas seguimos... A luta continua...


CARLA: Já esteve preparada para isso. Eu dancei no tempo em que comissão era quesito, se uma vez já o, fez por que não? Em uma época melhor futuramente não voltar a ser, mas no momento, é óbvio que não a estrutura para isso


ALEXANDRE: Já passou da hora... Mesmo com todas as dificuldades, ainda conseguimos manter excelentes bailarinos e coreógrafos carnavalescos. Precisamos e necessitamos explorar esse pessoal. Temos matéria-prima bruta de primeiríssima qualidade mas ainda não conseguimos nos planejarmos para extrairmos o que há de melhor nelas. Quanto a estarmos preparados ou não, fica a dúvida... Para alguns sim... Para outros não... Acredito que a escola deve investir... Não se investe num cantor novo e sem muita experiência para ser intérprete? Não se investe em um novo Mestre de Bateria que até ontem era auxiliar? Não se aposta num aderecista como carnavalesco? Pois então... O raciocínio é o mesmo... Estamos aqui para errar, aprender com isso e a cada dia melhorarmos... Temos que fazer a coisa acontecer... Se houverem erros, a receita é a seguinte: Plano de ação para as não conformidades e vamos à luta novamente... Uma hora engrena.


CONFRARIA: Se Comissão de Frente se tornar quesito de pontuação, tem medo de que o espaço do coreógrafo e dos grupos "amadores" seja tomado por cias de dança profissionais, como acontece comumente no Rio e São Paulo?


EDUARDO: Não tenho esse medo, porque em Porto Alegre o carnaval não se profissionalizou ainda. Não temos casais de mestre-sala e porta-bandeira profissionais (que vivam da dança de carnaval), intérpretes (alguns são, mas a maioria não) e ritmistas profissionais. É difícil viver de carnaval aqui. Então, penso que as companhias vão demorar a ocupar este espaço.


SALMO: Se o grupo, coordenador e coreógrafo trabalham com dedicação, buscando melhorias, qualificação e evolução, não vejo motivos de melindres. Profissionais das artes, sendo de qualquer região, vindo agregar eu super apoio, com a intenção de ampliar o campo de visão de todos nossos artistas populares. Simplesmente por grife, discordo! Midiaticamente, podendo ser positivo a vinda de profissionais renomados nesse quesito Comissão de Frente, para fortalecer o nosso movimento aqui, todos são bem-vindos. Vem da gestão da Escola de Samba investir no desenvolvimento da sua Comissão de frente. Proporcionando cursos, workshops, aulas anuais , com a proposta evolutiva do crescimento do grupo para abrilhantar ainda mais o espetáculo. Mas isso também pode partir das Comissões de Frente procurarem qualificação, e não encontrarem impasses de se qualificarem por si só. Não vejo as comissões de frente terem ações como uma realização de um evento relacionado a essas questões. A vaidade cega a proposta de nos unirmos de fato. Junto com alguns amigos, realizamos um projeto atendendo algumas dessas necessidades: Workshop Dança Sem Fronteiras, que tivemos a graça de realizar duas edições, e nos dois eventos nenhum componente de comissão de frente fez os cursos. Então, se em um futuro próximo tivermos uma mudança e as Escolas optarem por grupos profissionais, quantas Comissões de Frente permaneceriam nas suas Escolas de Samba? A mudança parte de nós, ou dos gestores?


CARLA: Não tenho medo porque eu sou cia de dança e há 8 anos sou formada e preparada para isso, mas é claro que o nível irá subir, pode ocorrer as contratações de companhias de dança buscando um nível mais elevado devido ao investimento. Mas acho totalmente necessário qualquer.um se intitula coreógrafo sem nem ao menos ter cursado ou se especializado e fundamentado em dança.


ALEXANDRE: Não... Medo algum. Na verdade, todos temos muito a aprender uns com os outros. A Cultura não pode atuar como um movimento de separação ou exclusão. Tenho 41 anos, trabalho com dança no Carnaval desde os meus 17 anos e sempre procuro atualizar-me nas questões que envolvem a área artística. Acompanho dançarinos de todas as áreas e posso afirmar com segurança: As Comissões de Frente de comunidades não deixam nada a desejar às cias de dança. Bem ao contrário. Assim como acontece com matemática e português, a área artística também necessita de estudo. O negócio é somar. O Carnaval necessita disso.


Os desfiles do carnaval de Porto Alegre acontecem nos dias 15 e 16 de março, no Complexo Cultural do Porto Seco.

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