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Da comissão quesito ao renascimento do carnaval

O quanto pode impactar a comissão de frente voltar a ser pontuada no carnaval?


Comissão Acadêmicos de Gravataí - 2010 / Foto: Vinícius Reis / PMPA

(*) Por Édy Dutra


Parece título de enredo, mas não é. Se bem que eu achei interessante. Vou anotar para não esquecer. Mas, vamos aos fatos desta minha resenha… Nesta semana, o carnaval de Porto Alegre recebeu uma notícia que há muito tempo aguardava com expectativa: comissão de frente voltará a ser pontuada nos desfiles das escolas de samba. Mais de duas décadas depois, o denominado “cartão de visitas” da escola de samba deixará de ser apenas um requisito de obrigatoriedade para valer ponto junto aos demais elementos avaliados no desfile.


Não foi uma luta fácil. Ao longo do tempo, diversos grupos e movimentos foram criados para dar voz às comissões de frente, mas não tiveram êxito. A resistência política das escolas de samba barrou a comissão de frente de garantir nota na avenida e não apenas troféus nas premiações carnavalescas. O principal motivo de resistência era a questão financeira. Subentendia-se que, virando quesito de pontuação, as comissões de frente exigiriam cachê (ou valores maiores do já era oferecido), o que iria inviabilizar os custos com o carnaval da escola. Outras tendências afirmavam que comissão valendo nota ocasionaria na absorção de dançarinos/coreógrafos profissionais (de cias de dança, grandes escolas profissionais) para o carnaval, fazendo com que a escola investisse nestas personas e não naqueles que acompanham a escola de samba ao longo do ano. E havia também aqueles que acreditavam que os grupos ainda não estavam preparados para receber a responsabilidade de ter uma nota na avenida.


Esta última hipótese caiu por terra ao passo que, a cada ano que vinha, os grupos de comissão de frente se destacavam ainda mais na passarela, com trabalhos criativos, ligados ao enredo e que ganhavam a simpatia do público. O impacto visual e coreográfico das comissões foi ganhando novos contornos e um certo amadurecimento. Os grupos perceberam que, para ganharem a confiança das escolas, era preciso se organizar e fazer valer na avenida a sua credibilidade.



Comissão de Frente Restinga 2012. Foto: reprodução internet.

Agora, os impactos financeiros foram rondando as conversas sobre virar quesito de pontuação ou não. Tudo com certa incoerência, ao meu ver. O investimento a escola já faz. Ninguém veste 15 rapazes, monta tripé, maquiagem e demais efeitos visuais de graça. Tudo tem custo. E aí valeria a pena manter esse custo simplesmente por uma questão de obrigatoriedade? Qual era o retorno que a comissão de frente dava para a escola que investiu na sua apresentação, mas que não recebeu nota nenhuma por isso? Trazer profissionais de dança de fora do carnaval para ingressar nos trabalhos de uma comissão de frente é algo super natural. O que não é natural é o pensamento de que, agora, apenas estes profissionais podem comandar uma comissão de frente, desprezando o trabalho de vários coreógrafos que fizeram lindas apresentações na avenida. Portanto, diretorias, foquem e valorizem os talentos que vocês têm em casa!


E, falando em valorizar, é preciso enxergar um ponto importante que esta nova configuração do quesito comissão de frente traz para as escolas de samba: a oportunidade de olhar para sua comunidade. Lapidar talentos é essencial para uma entidade que carrega a essência de ser ESCOLA DE SAMBA. Oportunizar que, através da dança, crianças, jovens e adultos possam contribuir com seu talento dentro deste organismo social tão vivo que é uma entidade carnavalesca, é algo de extrema urgência e primordial para a manutenção da nossa cultura.


Não é bacana ver que uma escola de samba está abrindo vagas para selecionar os novos integrantes de sua comissão de frente? E que aqueles que não ficaram nas vagas destinadas, podem formar um grupo e vir a desenvolver trabalho de dança em alas coreografadas? E que fazendo ações deste tipo, movimenta-se a quadra, agrega a juventude, traz os familiares para prestigiar seus novos talentos, faz com que a escola de samba seja vista na comunidade como uma referência de aprendizado e amadurecimento social. Isso que eu falo não é demagogia, não é sonho. São possibilidades reais! É fácil? Não, não é. Exige TRABALHO e BOA VONTADE!


Mas ora, somos filhos do carnaval, a manifestação cultural forjada no trabalho, na boa vontade, na integração, na resistência, na celebração dos nossos discursos de luta, de fé, de graça, de esperança! Vamos aproveitar esta pequena brecha e abrir espaço para novos horizontes. O carnaval de Porto Alegre está recomeçando do zero. Nada melhor do que recomeçar fazendo a coisa certa: olhando para a nossa comunidade, é ela que vai nos dar suporte para que possamos ressurgir.

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