• Confraria Da Folia

"Fiquei satisfeito com o trabalho na Imperatriz"

Michael Smith falou sobre como foi trabalhar no carnaval de Porto Alegre em 2020.


Em sua terceira passagem pelo carnaval da capital, a primeira como carnavalesco, o paulista Michael Smith realizou um dos desfiles mais aguardados do ano, pela Imperatriz Dona Leopoldina, e levou a escola ao 4º lugar no carnaval 2020. Passados os dias de folia na capital dos gaúchos, o carnavalesco conversou com o Confraria e contou um pouco desta experiência vivida no desfile do Porto Seco.


CONFRARIA: Como se deu a construção do carnaval da Imperatriz, já que você é um carnavalesco de fora do Estado e tinha outros compromissos também?


MICHAEL: A partir do momento em que eu fui contratado e anunciado como carnavalesco da Imperatriz, eu comecei a estar na cidade uma vez por mês e começava a ficar em Porto Alegre em torno de uma a duas semanas. construindo o carnaval da Imperatriz. Com reuniões com os departamentos, destaques, chefes de ala, diretoria, direção de carnaval, para então construir o carnaval da escola. Então o trabalho se deu de uma forma bem tranquila. O único mês que eu não fui para Porto Alegre foi no mês de dezembro, por conta das festas de final de ano. Depois retornei em janeiro e em fevereiro, após os compromissos aqui em São Paulo.


Desfile da Imperatriz Dona Leopoldina 2020. Foto: Kellory Moraes/Confraria da Folia

O trabalho foi tranquilo, nada saiu fora do controle. A grande questão disso, para dar certo, é organizacional. É eu me organizar para que o processo do carnaval que eu esteja fazendo seja realizado de forma agradável, dentro de um cronograma para que as coisas possam acontecer da forma como têm que ser. Lógico, eu sei as dificuldades do carnaval de Porto Alegre, né? Hoje eu estou bem por dentro das dificuldades, da questão de não ter verba, de como é construído o carnaval. E diante disso foram feitas as modificações, algumas mudanças para poder se enquadrar. Mas foi um trabalho de muita conversa, muito entendimento e isso foi muito bom.


CONFRARIA: A Imperatriz é uma escola com uma comunidade muito forte e muito identificada com a escola. Deu para sentir essa integração enquanto você preparava o carnaval?


MICHAEL: Eu só tenho que agradecer à comunidade da Imperatriz porque as pessoas realmente se dedicam à esse pavilhão, elas amam esse pavilhão, amam a sua comunidade. E nada melhor e mais gratificante que, após o desfile, ver o brilho nos olhos das pessoas, felizes com o que foi apresentado. Eu não quero citar nomes para não esquecer de ninguém, mas gostaria de agradecer a cada uma das pessoas que estiveram naquele barracão, no paiol da quadra arrumando, fazendo e organizando fantasias, para tudo poder sair de uma forma bacana. Eu senti sim esse vínculo da comunidade com a escola, esse amor ao pavilhão da Imperatriz, a famosa "Laranja Mecânica". Isso me deixou muito feliz e satisfeito. Só tenho realmente que agradecer porque foi muito gostoso vivenciar tudo isso.


CONFRARIA: A Imperatriz apresentou uma das plásticas mais elogiadas do carnaval, considerada inclusive muito luxuosa. É o seu perfil, este apuro mais luxoso na estética dos desfiles?


MICHAEL: Eu fico muito feliz de ver que houve esse tipo de comentário, de elogios no carnaval da Imperatriz. Quando eu fui convidado a fazer este trabalho no carnaval de Porto Alegre e eu aceitei estar à frente da Imperatriz com esse projeto, uma coisa vinha sempre na minha cabeça: mudar o olhar das pessoas para a Imperatriz. E isso eu consegui fazer neste carnaval.


Alegoria da Imperatriz Dona Leopoldina. Foto: Kellory Moraes/Confraria da Folia

Ver cada componente com brilho olhar em relação ao seu pavilhão, em relação com o que estava sendo apresentado no desfile e o pós desfile... Quanto a isso, eu não tenho palavras. Sobre o meu perfil, eu gosto de ir me moldando, me atualizando. E eu já queria, para 2020, adotar nos meus carnavais um nova plástica. Então eu estudei, estudei muito o carnaval de Porto Alegre, para fazer algo para que as pessoas se sentissem felizes, orgulhosas de dizer que são Imperatriz. E isso para mim é muito importante.


CONFRARIA: Como a Leci recebeu o desfile da escola? Sabe se ela teve acesso à imagens, à repercussão? Acha que a presença dela traria ainda mais condições da Imperatriz alcançar o título?


MICHAEL: (A Leci) Recebeu muito bem. Por algumas questões pessoais ela não pode estar presente. Até o último momento ela tentou, mas não deu para estar em Porto Alegre. Ela viu as filmagens, as fotos. Ela mandou um vídeo depois para a própria diretoria, recebeu muito bem.

Michael e Leci Brandão, homenageada da Imperatriz em 2020. Foto: Acervo Michael Smith

O que a escola propôs, o que o Michael propôs, foi feito na avenida, o trabalho foi executado. Tivemos algumas fatalidades no decorrer do desfile. E essas fatalidades poderiam ter acontecido com a presença da Leci ou sem, como aconteceram. Saímos do desfile completamente felizes e satisfeitos. E aí eu volto na sua pergunta anterior... Eu fico muito feliz e satisfeito com o comentário das pessoas, de que fizemos um desfile muito luxuoso. Não tem mais nada que possa deixar mais feliz e satisfeito do que saber disso. Às vezes não é uma marca no papel que vai me deixar satisfeito. A voz do povo, as pessoas falando, as pessoas elogiando, isso pra mim é uma satisfação que não tem explicação.


CONFRARIA: A energia acaba é outra quando a comunidade compra a ideia. Já aconteceu de algum enredo seu não emplacar no gosto do público?


MICHAEL: A energia realmente é outra quando a comunidade compra a ideia. Até hoje não aconteceu comigo isso da comunidade não comprar o enredo. E eu peço sempre para que os seres elementares da natureza me iluminem para que isso nunca aconteça. Porque seria muito frustrante você desenvolver o enredo e esse enredo não emplacar, as pessoas não vestirem a camisa, não se emocionarem. Quem trabalhou comigo sabe, eu sou muito emotivo, trabalho muito com essa coisa da emoção. Então, quando eu faço o enredo, eu já penso de que forma ele vai ser emotivo para mim. Se eu conseguir me emocionar com algo ali, eu tenho certeza que o negócio vai emplacar. Agora se não me emocionar, eu tenho ajustar, mudar a linha do enredo, para tentar de alguma forma compensar isso.


CONFRARIA: A estrutura de desfiles oferecida pela organização recebeu muitas críticas, tanto do público quanto de profissionais que trabalharam nas escolas. Como você enxergou tudo isso? Da concentração à dispersão, qual a sua impressão sobre o que foi oferecido para as escolas mostrarem seu trabalho?


MICHAEL: O carnaval de Porto Alegre é um carnaval de resistência... Você não tem o apoio do governo, não tem o apoio das estatais... As escolas, as diretorias, as pessoas, os carnavalescos de forma geral, acabam fazendo um carnaval de resistência. E aí quando você precisa de um apoio mínimo, de estrutura, você também não tem. Eu acredito que, com todos os problemas que já se teve no carnaval de Porto Alegre, ele está numa crescente. Eu acho que para 2021 muitos dos problemas vão ser solucionados. Teve um ano que nem teve carnaval. Este ano nós conseguimos pular algumas barreiras, alcançar alguns méritos, de coisas positivas que aconteceram. Eu acredito que para 2021 as coisas serão melhores, eu penso dessa forma.


CONFRARIA: O que vai ficar marcado na sua memória deste carnaval de 2020?


MICHAEL: Cada carnaval tem algo diferente que fica marcado. E, sem sombra de dúvida, o que fica marcado na minha memória foi o momento em que eu estava no recuo e há uns dois ou três metros da cabine julgadora, o último carro vem vindo e, literalmente, ele parou. (suspira) E quando eu percebi que ele estava indo pra frente e pra trás, foi o pico de emoção e nervoso, adrenalina, choro, desespero... Não consegui me controlar nessa questão, porque eu sou muito emotivo. E aí a única coisa que eu pensava naquele momento era que aquele carro tinha que sair dali. Se não seria o fim, uma catástrofe!... Ah, aquele carro tinha que sair dali! Eu pensava, eu rezava, eu acredito muito em orixá, sou devoto de orixá, orixá pra mim é tudo... Então naquele momento eu pedia a Exu, ao meu Pai, Oguiã, que aquele carro pudesse andar, sair da avenida e entrasse de volta no barracão. Isso fica marcado muito na minha cabeça, na minha história de carnaval.


Alegoria da Imperatriz. Foto: Kellory Moraes/Confraria da Folia

E aí, eu conversando com as pessoas alguns dias pessoas, disseram que deu problema na roda, ela saiu do lugar e aí uma pessoa, com um murro, conseguiu colocar a roda no lugar... E aí a gente se pergunta, como um carro daquele tamanho, com o peso que estava, e com um soco a roda volta pro lugar? Aí que eu falo mais uma vez, eu acredito muito em orixá... E quando acabou o desfile, parecia até uma cena de novela. Dava pra gravar uma novela! Eu, no barracão, sozinho, sentado no carro, chorando, feito um maluco! Escutando a outra escola desfilar e eu naquele barracão sozinho, em cima do carro, chorando e dizendo: "por que você fez isso comigo?!" (risos) Hoje eu dou risada, mas aconteceu. Que fique na memória, mas foi uma situação que eu não quero que se repita.


Carlinhos de Jesus em visita ao barracão da Imperatriz, acompanhado da direção da escola. Foto: Acervo Michael Smith

Mesmo não revelando se segue na escola para o carnaval de 2021, Smith fez questão de agradecer à Imperatriz e toda comunidade pelo belo carnaval realizado.


"Eu agradeço a todas as pessoas que trabalharam, que se dedicaram nem que fosse um pouquinho do seu tempo, abdicaram de fazer alguma do seu particular para estar no barracão trabalhando. Agradeço às tias que estavam no paiol trabalhando... Ao meu presidente André. Acho que fomos dois loucos! Eu embarquei na dele e ele embarcou na minha pra fazer este carnaval e é uma pessoa que se tornou um grande amigo".



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