• Confraria Da Folia

Já vimos esse filme - e não gostamos das cenas

Até quando a escola de samba será vilã em Porto Alegre?


(*) Por Édy Dutra


Já vimos esse filme. Não é novidade para ninguém a interdição de um espaço do samba. É dolorido. É um filme indigesto porque, na maioria das vezes, os fechamentos são feitos de forma muito bem pretenciosa, para não dar chance "ao erro". Não gostamos das cenas deste filme porque elas escancaram um asco social - e estrutural - que parece interminável. Elas desvelam um desamparo histórico da comunidade carnavalesca. As imagens e relatos da interdição da quadra da Imperatriz Dona Leopoldina, minutos antes da realização de um evento, mostram que apesar dos poucos aliados, o carnaval ainda é visto como inferior, indigno e irregular. Para as autoridades, escola de samba é um fardo que precisa ser silenciado, eliminado a qualquer custo.


Fotos: Tondy Guedes


Há de se destacar aqui que o povo carnavalesco não é contra fiscalização nos estabelecimentos. Pelo contrário, ela se faz cada vez mais necessária para a segurança de todos que desfrutam do espaço. O ponto conflitante aqui é a forma como essa fiscalização se dá. Principalmente quando ela ocorre em espaços pretos. O tempo é mais apertado, as exigências são elencadas em itens e mais itens, a rigidez é mais apurada. É notória a diferença com que espaços que não são frequentados majoritariamente pela população negra têm outro tratamento na hora de serem fiscalizados. Ou já vimos um efetivo policial como este que se posicionou na quadra da Imperatriz à frente de algum outro estabelecimento que não fosse de cultura popular?


Porto Alegre é, historicamente, uma cidade carnavalesca. Desde a metade do século XIX já havia manifestações de carnaval por aqui. "Curioso" essa cidade historicamente carnavalesca ser totalmente contra a escola de samba. A escola de samba que tomou conta da cena carnavalesca da capital, que ditou o ritmo, a marca, que trouxe o povo preto para o protagonismo e que, até hoje, luta para se manter de pé, representando a manifestação cultural mais plural do país! Mas cá entre nós, sabemos bem o porque disso tudo. É impossível afastar a caneta do preconceito nesta perseguição à cultura popular da escola de samba. E são ações como essas nos fazem lembrar das diversas cenas de filmes onde a escola de samba é escorraçada. Não gostamos dessas cenas. Mas elas se repetem, mantendo a narrativa da escola de samba vilã, a culpada pela insegurança, pela desordem... e até mesmo pela covid!


Só para citar algumas das perseguições mais recentes: quadra do Bambas escolhida para servir de necrotério no período da pandemia; quadra de Imperadores interditada, gerando inclusive protesto dos carnavalescos na Esquina Democrática... Agora, Imperatriz com sua quadra fechada minutos antes de um evento que teve, de acordo com a direção da escola, autorização da prefeitura para a sua realização.


Até quando? O que precisa ser feito para garantir o respeito à instituição Escola de Samba? Seremos, eternamente, nós por nós?


A falta de união das lideranças carnavalescas também afeta a imagem forte de um movimento tão tradicional como o nosso. Mostramos a fragilidade às autoridades, que pouco preocupadas conosco, fazem de nós gato e sapato. E aí, na hora de uma voz firme na liderança pela luta dos nossos direitos, pelos nossos espaços, por respeito, não temos ninguém. Apenas vozes apaixonadas, que dentro de seu alcance, não podem fazer nada além de demonstrar seu apoio e sua indignação, mas sem o poder da caneta. Vamos refletir se queremos continuar com o papel de vilões ou não. Até porque, se a gente segue assim, daqui a pouco o fim do filme estará bem próximo e não será agradável pra gente.


Foto: Tondy Guedes

Mudemos os atores? Reorganizemos a direção? Pensemos um novo roteiro para que cenas como essas não se repitam. Nós não gostamos dessas cenas.



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