• Confraria Da Folia

Que carnaval queremos?

A nossa essência é aglomeração, mas o sambista sabe que não é só festa. Se a nossa vida tá mudando por conta da pandemia, o carnaval também vai precisar mudar. Fotos: Kellory Moraes


Por Édy Dutra


Nessa última semana, a LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) anunciou o adiamento dos desfiles do Grupo Especial carioca. Não haverá apresentações em fevereiro. ainda estão estudando uma nova data ou novo formato para o carnaval. Mas tudo isso condicionado à uma solução eficaz para contingência ou cura da covid-19. São Paulo já havia sinalizado com a possibilidade de fazer carnaval no meio do ano de 2021, também no aguardo de uma vacina que proteja a população. Porto Alegre também, através da Uecgapa, anunciou datas para março, algo que certamente não permanecerá.


A pandemia - já é sabido - afetou todos os setores da sociedade brasileira, assim como no mundo. Mais precisamente no Brasil, o setor cultural, que já vinha sendo maltratado pelo poder público - e por uma parcela da sociedade - foi um dos que mais penou (e ainda pena) neste cenário cruel. E, dentro disso, o carnaval aparece ora como algoz - sim, tem gente que culpa o carnaval pela propagação do coronavírus - ora como elemento de escárnio para com vida humana - como ousar pensar em carnaval com mais de 140 mil mortes no país?


Isso prova uma coisa: que o Brasil ainda não vê o carnaval como uma manifestação que gera, além de cultura, educação e entretenimento, também emprego, renda, lucro.


Ou seja, não é apenas uma festa que se pode simplesmente cancelar e tudo fica bem. Há pessoas que dependem diretamente deste setor para sustentar suas famílias, assim como muitos outros trabalhadores em diversas áreas: indústria, comércio, serviços. Numa proporção um pouco menor, mas também significativa, nós aqui em Porto Alegre temos os profissionais que têm no carnaval uma forma de complementar sua renda, de garantir comida em casa, pagar suas contas, sobreviver. Não é apenas uma festa.


E cá pra nós: antes fosse apenas o problema do corona que prejudicasse a festa, não é? Um ano sem carnaval, com um poder público - e uma parcela da sociedade - que repudia a cultura (principalmente aquela oriunda do povo, do pobre, do negro), pode acarretar numa forte barreira para um recomeço mais adiante. Porto Alegre sentiu isso na pele em 2018, quando as escolas de samba não passaram na avenida e o desfile se viu afundado numa grande crise: institucional, financeira e social. E estamos longe de vivenciar a plenitude que nosso carnaval deseja e merece, por toda sua história e tradição.


Que carnaval queremos? Deixar tudo para 2022 é a melhor saída ou é a única saída? Nossas escolas terão gás para manter o seu público unido mesmo não havendo desfile?


Baianas da Imperatriz Dona Leopoldina em 2020. Foto: Kellory Moraes/Confraria da Folia

As escolas de samba precisam agora, mais do que nunca, acolher e proteger a sua comunidade, os seus simpatizantes, o seu passado, presente e futuro. Proteger a si mesma. E isso não significa pensar apenas o desfile de carnaval do ano seguinte. Significa a preservação de costumes e tradições de uma instituição cultural de valor inestimável. Significa olhar para todos que a compõem, da quadra ao barracão. Eliminar o pensamento de que a escola de samba existe simplesmente para desfilar. Ela é mais que isso.


O carnaval nunca foi, não é e nem será um atentado contra a saúde e a vida das pessoas. O sambista sabe e reconhece este fato.


Um ano sem carnaval pode significar muitas perdas, que vão da economia ao sentimento, afinal, celebrar o carnaval é dar um grito de liberdade de tudo aquilo que nos oprime. Mas sabemos que no atual momento sanitário é algo complicado, pois a nossa celebração é aglomeração pura. É da nossa essência unir as pessoas.


Afinal, que carnaval queremos? Pode a pandemia fazer com que a gente reflita sobre a nossa estrutura e nossas ações enquanto manifestação cultural, enquanto escola de samba? Estava bom como era antes? O que podemos melhorar daqui pra frente? Antes de nos perguntarmos "quando teremos", é preciso estarmos cientes de qual carnaval nós queremos. Porque se nossa vida vai mudar depois de tudo isso, o carnaval também precisa.

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