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Realeza levará a história dos lanceiros negros para o próximo carnaval

Atualizado: 15 de Set de 2020

Pedro Linhares, temista campeão em 2020 pelos Bambas da Orgia, assina a sinopse do enredo.


Abrindo a semana farroupilha - período onde é celebrado o orgulho gaúcho no Rio Grande do Sul - a Realeza apresenta seu enredo para o próximo carnaval propondo uma dose a mais de reflexão diante da história da Revolução Farroupilha. Com o título "Eles Combinaram de Nos Matar, Nós Combinamos de Não Morrer", a escola da Encruzilhada do Samba levará para a avenida a história dos lanceiros negros e o massacre dos porongos, uma das mais sangrentas batalhas da Guerra dos Farrapos. O enredo é assinado por Pedro Linhares, campeão em 2020 pelos Bambas da Orgia e que também já havia trabalhado na Realeza no último carnaval, quando a escola alcançou a 5ª colocação no Grupo Prata. Confira abaixo a sinopse da Realeza para o próximo carnaval.


Logo oficial enredo 2021 Realeza

Sinopse:


“[...]no dia 14, às duas horas da madrugada possa atacar as forças ao mando de Canabarro que estará neste dia no cerro dos Porongos (…) Suas marchas devem ser o mais ocultas que possível seja, inclinando-se sempre sobre a sua direita, pois posso afiançar-lhe que Canabarro e Lucas ajustaram ter as suas observações sobre o lado oposto. No conflito, poupe o sangue brasileiro o quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda nos pode ser útil no futuro. [...]”*


“Eles combinaram de nos matar. Nós combinamos de não morrer”


Eles


Com o mesmo brilho da aurora precursora de um novo amanhã, as estrelas da escura madrugada serviam de testemunhas para o combinado. Ao pé do cerro de Porongos, a traição se confirmava, ao passo que a liberdade se esvaía como o sangue das lanças e das espadas imperiais, empunhadas por mãos brancas ricas e poderosas. A marcha das fardas, das joias e do poder subia acelerada e, Pedro Chico, simplesmente, tornava-se Coronel da Revolução.


Na lavoura ou nas paredes da grande estância haviam pedaços de história da tropa farroupilha iludida por uma vida livre: eram pedaços de vidas amarradas de uma cultura ancestral ignorada, agora disfarçada pela alvura do Velho Mundo. Eles havia combinado de nos livrar.


Do alto, a vilania se estabelecia: de um lado, o Duque e de outro o General. Ao menor sinal de um sorrateiro voo do quero-quero sob a rigidez dos nossos corpos fortes - muito bons para a edificação das fazendas - tornariam-se descartáveis e frágeis para o dito progresso sulista; o progresso revolucionário dos pampas. Era o mal imperial posto em jogo.


Mais de cem dos nossos com a vida ceifadas, eles achavam. Vidas que já não importavam há muitos séculos caíam sob a terra como sementes sopradas pelo minuano, criando raizes por esse chão. O tronco robusto e empoderado agora reinava em uma copa armada, com frutos por todo o lado. A vida preta transformava-se em árvore milenar e até você, meu caro inquisidor, possuía na negritude a seiva de sua existência.


Nós


Remascentes da dor deságuam nas curvas do pequeno arroio do cerro: era o sangue de gente forte, aguerrida e brava se mitificando em axé, o poderoso cerne da existência. Mas eles não sabiam das várias formas de existir, inclusive a de re-existir: enquantos eles ganhavam supremacia ao ter nome gravado em monumentos pelas cidades, o ferro que os forjava eram repleto de minha’alma, me valendo de cada palmo de tudo que aqui habita, servindo de modelo a toda a Terra.


Não me basto de valor ou ainda de constâncias... Sou Lanceiro Negro, com a alma negra curada pelos tambores e ritos de fé, e agora curo os feridos de cada batalha vencida; me torno arquiteto de novas façanhas, criando pontes e armas – não as do homem mal – de bestas feras; mas as do futuro, as que combatem as ímpias e injustas guerras.


E para me eternizar o pranto, no colo de yá preta o acalanto. Me volto ao grande Farol das Divindades! Velas acesas de outrora reluzindo em olhos d’água de negro agora livre, enquanto cada esquina ecoa as minhas respostas: – Motumbá Axé, Olorum Kolofé! - Nós combinamos de não morrer.


Voz


Vos faremos livres pelos céus! A voz vos fará livre pelos ares! Não nos calarão ao ver cada preto graduado, condecorado e eternizado. A voz de comando da batalha de Porongos reverberá em batalhões de homens e mulheres do novíssimo tempo. São os herois de jaleco, de uniforme, de caneta em punho, por vezes em riste para o preconceito.


No calendário, a data marca 14 de Novembro de 1844, o dia do desarme. Na história, a Realeza Negra se desalma para jamais esquecer e verbalizar em canto, dança e memória os seus antepassados, na videira santa. O futuro guiará as conquistas por uma trilha eterna de grandiosidades das avenidas da vida. Toquem os tambores, soem cânticos para pretos africanos e brasileiros, nossa voz vai sobreviver, viver e reviver...


Referências:


* [EVARISTO, Conceição In Olhos d’água.]

** [AHRS. Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul-Volume 7. Porto Alegre, 1963. P.30/31].

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