• Confraria Da Folia

Segregamos o samba no pé

Diferentemente do centro do país, aqui no Sul nós diferenciamos o samba da passista, da rainha do carnaval e da frente de bateria. Por quê?


(*) Por Édy Dutra


O samba no pé em questão. Foto: site G1.

Há tempos eu venho pensando nisso porque é um tema que me atrai. O samba no pé é a alma carnavalesca, podemos por assim dizer. Afinal, quando repiques, caixas, surdos e tamborins começam a dar o tom do samba, ninguém fica parado. E aí surge aquela vontade de SAMBAR. As mulheres, com todo o seu destaque, acabam ganhando projeções dentro do universo carnavalesco, principalmente quando o assunto é samba no pé. O molejo dos quadris, a postura do tronco e dos braços, os trejeitos no jogo de pernas e o famoso "carão" já são hoje requisitos básicos para arrasar nos ensaios, shows e avenida.


Mas, diferentemente de outros carnavais, principalmente no centro do país, aqui no Sul temos por cultura separar/classificar o samba no pé da escola de samba. De acordo com seu estilo, a menina pode ser rainha da escola (ou do carnaval), passista ou frente de bateria. Quantas vezes já não ouvimos frases do tipo "a fulana tem samba de passista", "beltrana não pode fazer isso, ela é rainha e não passista", ou ainda "ela tem todo perfil de rainha de bateria e não do rainha do carnaval"? Por quê?


Se fizermos um exercício rápido, quantas rainhas do carnaval você se lembra com um samba no pé tão marcante quanto uma passista da escola de samba?


Aqui em Porto Alegre temos, por costume, colocar as rainhas do carnaval num patamar onde ela não pode ter o escracho, a malícia e o gingado da passista. É como se houvesse uma divisão de classes, onde as rainhas (a corte, de uma forma geral) fossem os nobres (como de fato são pelo título) mas que não podem, de maneira alguma, carregar trejeitos da "plebe", que seriam as passistas que rasgam o asfalto com seu samba no pé fervente.

A partir desta comparação, já se pode, infelizmente, determinar que muitas meninas que hoje são (ou desejam ser) passistas dificilmente serão rainhas do carnaval. Até porque seria um trabalho triste desconstruir seu samba para caber na caixinha da nobreza. Ao mesmo passo que, as meninas da corte se encaixam, muitas vezes, no perfil de frente de bateria. E mais uma vez, surge a comparação com as passistas. Os universos da corte e da frente da bateria se assemelham, porque, assim como uma corte de carnaval, uma frente de bateria não pode externar os trejeitos de passista.


Édy, quem disse que não pode? Onde está escrito isso? Não sei! Mas vocês já viram alguma frente de bateria que tenha seu samba e trejeitos tal qual uma passista? A não ser que a passista tenha virado frente de bateria.

Intrinsecamente, a gente já cria os modelos. O olho bate e a já sabemos onde "encaixar" cada uma. E o samba no pé, que deveria ser democrático, acaba sendo um mecanismo de seleção, direcionando o destino dessas sambistas. Lancei aqui minha visão sobre o assunto e convido nossas passistas, rainhas e musas a conversar sobre isso também. Afinal, elas vivem na pele o samba no pé do carnaval.