• Confraria Da Folia

Tem gaúcho na final de samba da Mangueira

Verde e rosa escolhe seu samba 2020 no próximo sábado, 12.


(*) Por Éder de Barros



“Mangueira, hoje o teu batuque é minha reza”


Segundo o saudoso Luizito, “a maior escola de samba do planeta” vai escolher o seu hino para o carnaval de 2020 no próximo dia 12 de outubro, no Palácio do Samba. A atual campeã do carnaval carioca, consagrou para sua final 3 grandes obras e, entre elas, o samba 13, que conta com a parceria de um gaúcho, o compositor Leandro Almeida.

A Mangueira já recebeu em outras oportunidades a composição de sambas de compositores do nosso Estado. Essa linda história começou em 2010, o enredo era "Mangueira é música do Brasil" tendo como compositor gaúcho pioneiro Rafael Tubino, que naquele ano contava com a parceria de Gláucio Guterres. Tubino no ano seguinte persistiu e no enredo sobre Nelson Cavaquinho, "O filho fiel, sempre Mangueira" (2011), tinha a parceria de Marcio Rodrigues. Nossos irmãos da terra pisaram firme na verde e rosa no ano de 2012, com um time de peso: Rafael Tubino, Vitor Nascimento, Andy Lee, Vinicius Maroni e Vinicius Brito concorreram no enredo que festejava o tradicional bloco Cacique de Ramos - "Vou festejar! Sou Cacique, sou Mangueira!". Neste ano, inclusive, o grupo vocal na defesa do samba também contava com um time igualmente de primeira linha: Sandro Ferraz, Renan Ludwig e Viny Machado. Na ocasião, o samba rompeu as duas primeiras eliminatórias mas não resistiu ao forte chaveamento da terceira etapa e acabou eliminado na apresentação ocorrida na quadra do bloco homenageado.


Agora, em 2020, estamos prestes a presenciar a história! Com o enredo “A Verdade Vos fará Livre”, o samba de Leandro Almeida, que ainda conta com a parceria de Rodrigo Pinho, Pedro Terra e Bruno Souza, triunfou entre 66 sambas e já está entre os mais executados, se posicionando como um dos favoritos para essa final. Tive a oportunidade de conversar com o primeiro compositor gaúcho finalista na Mangueira, que falou sobre sua trajetória e sua satisfação de estar nesta final.


Rodrigo Pinho, Bruno Souza, Pedro Terra e Leandro Almeida, compositores finalistas da disputa da Mangueira, Foto: Pedro Terra

Confraria da Folia: Pode nos contar resumidamente como você começou a ter interesse pela composição de sambas?

Leandro Almeida: Meu pai era uma pessoa que gostava muito de samba, então eu cresci em casa escutando Clara Nunes, Agepê, Bezerra da Silva, Alcione. Todo ano antes do Natal, ele comprava o disco de samba enredo e gostava de reunir o pessoal para assistir os desfiles das escolas de samba a noite toda pela tv, então eu curtia bastante aquilo ali. A partir de 98, eu acho, comecei a acompanhar o Carnaval de Porto Alegre e fui na quadra da Vila Isabel de Viamão e acabei fazendo amizade com o Arizinho, onde nossa amizade se estreitou e eu acompanhei o processo de criação dos sambas da escola. No ano de 2007 eu fui um dos compositores do Samba da Vila Isabel, que foi minha primeira escola do carnaval de Porto Alegre. Mas desde pequeno eu já escrevia versos e pequenas poesias.


CF: Quais escolas de Porto Alegre você já compôs Sambas?

LA: Na Vila Isabel em 2007, na Imperadores no ano da Frida, neste mesmo ano disputei na Praiana. Mas não tenho o costume de disputar em muitas escolas. Disputei na Praiana porque tinha uma amizade com o Humberto e o João Boff que foi Mestre Sala lá. Na Vila Isabel porque foi minha primeira escola, onde eu tive uma afinidade com todas as pessoas e no Imperadores, que é uma escola que eu tenho um carinho muito grande(...). Não me considero um profissional de composição de sambas, entendeu? Eu gosto de compor para essas escolas porque tenho afinidade.


CF: E no Rio? Além da Mangueira, qual outra escola você já concorreu?

LA: No Rio eu sigo a mesma convicção. Só disputo na Mangueira. Cheguei em 2015 e a disputa já havia encerrado. Em 2016 participei das reuniões e cheguei a escrever o samba, mas não consegui parcerias e o samba acabou não entrando. Em 2017 a escola que cobrava R$ 200 reais, pela taxa de inscrição do Samba, passou para R$ 600,00 reais, achei uma contradição por parte da Escola em virtude do enredo* me aborreci com aquilo e nem quis entrar na disputa. Em 2018 fiz parceria com o Bira Show e nosso samba foi até as quartas de final, o que foi surpreendente para muitas pessoas. Essa participação me deu visibilidade e fui procurado por outros compositores para compor samba e neste ano se formou a parceria com Rodrigo Pinho, Pedro Terra e Bruno Souza e nós estamos aí na final, graças a Deus.


*(em 2017 o Enredo da Mangueira que a Mangueira preparava para o Carnaval de 2018 era “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”)


CF: A Mangueira é uma das escolas de samba mais reconhecidas no mundo e está entre as 4 mais tradicionais do Rio. Como está sendo para você chegar na final em uma escola deste calibre?

LA: Poxa chegar na final da Mangueira é algo além de um sonho né! É uma sensação indescritível e as vezes até meio desconcertante também. A emoção de tu estar ali em cima do palco e de tu poder ver os teus amigos, felizes, torcendo e cantando o samba, poxa! Estar com uma parceria maravilha como eu estou esse ano, (eles) são uma molecada que são gente boa demais, nós formamos praticamente uma família com essa parceria (...) deixando pra trás compositores renomados na escola dos quais eu sou fã é uma felicidade muito grande, é um compromisso muito grande, mas a gente sabe que vai ir lá pra apresentar aquilo que a gente conseguiu fazer de melhor e pra ser feliz ali, por aquele momento de estar ali em cima (...) então no meu segundo ano disputando e já conseguir estar na final é uma satisfação muito grande e um orgulho muito grande também poder estar representando o Rio Grande do Sul, Porto Alegre de onde eu saí e hoje ser um finalista na Mangueira.


CF: Você acha que o rígido formato de disputa imposto pela Mangueira este ano, te foi favorável para chegar até a final? Entende ser este o modelo mais democrático e justo para a escolha de um samba enredo?

LA: Com certeza. Porque realmente democratizou o processo e colocou em um mesmo nível de acessibilidade de mídia, todos os compositores, então valorizou muito o Samba (...) eu entendo como um processo muito democrático esse que em outros anos se sabe que o investimento é grande, tem que ter sempre um investidor porque se chega a 80 mil reais pra se chegar em uma final, tendo que pagar torcida, churrasco, bebidas, ingresso, camisa e interpretes, então assim a disputa se torna bem injusta pra quem não tem uma capacidade de investimento financeiro alta né? E com esse formato de disputa que a Mangueira criou, possibilitou para que a maioria ou aqueles que se organizam durante o ano, consigam participar com chances reais de chegar até a final ou ser campeão mesmo! Dependendo exclusivamente do seu talento ou da qualidade de seu samba. Sensacional! Esse formato que a Mangueira implementou esse ano e foi um determinante para estarmos nesta final.


“Mangueira, hoje o teu batuque é minha reza”

Faz ressuscitar a poesia

Ameniza a cruz do dia a dia

Verde e rosa amor, levei no coração

É divino o carnaval

Com a benção dos bambas

Pra ser feliz no juízo final”


Boa Sorte Leandro Almeida. Boa Sorte Samba 13. Boa Sorte Mangueira! Confira abaixo a obra finalista.