• Confraria Da Folia

União das Comissões de Frente: um ato político

Encontro aconteceu no último domingo na capital e reuniu coreógrafos, dirigentes e presidentes de escolas de samba


Apesar do dia frio do domingo, 14, mais de 50 pessoas se reuniram no centro de Porto Alegre para falar sobre Comissão de Frente. O número parece pouco em termos de quantidade, porém, a qualidade no debate foi elevada. Organizado pela União das Comissões de Frente (UCF), o encontro teve como principal objetivo discutir a validação do segmento como quesito de pontuação nos desfiles das escolas de samba de Porto Alegre. Desde 1993 o quesito não é avaliado no carnaval, contando apenas sua obrigatoriedade. As escolas já investem no segmento de diversas formas, porém, torná-lo quesito de pontuação tem sido um grande obstáculo.


Presidentes mostraram apoio ao movimento da UCF. Foto: UCF.

O primeiro encontro geral da UCF contou com a presença de coreógrafos de comissão de frente, presidentes e diretores de escolas de samba, dançarinos e integrantes de grupos carnavalescos. A seguir, você acompanha alguns relatos que foram expostos ao longo da atividade.

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Iara Silva (coreógrafa): "A comissão de frente não quer cachê. Ela quer ser valorizada. Esse foi um dos motivos de eu ter me afastado. A gente faz um trabalho completo ao longo de meses e chega na hora não recebe a devida valorização".


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Érico Leoti (presidente Imperadores do Samba): "Na Imperadores, a gente tem um trabalho transparente, olho no olho. É um trabalho colaborativo. Pelo respeito que a gente tem, a comissão de frente precisa estar integrada com tudo o que acontece na escola de samba. A escola de samba não tem recurso financeiro extra".


"Hoje, comissão de frente ser quesito em Porto Alegre tem um impeditivo: o custo. Mas já não há este custo? A gente que entender o custo adicional que teria com ela sendo quesito. As coisas que acontecem nas reuniões técnicas dos presidentes acontecem a partir daquilo que é vivenciado dentro das escolas de samba".

Para que a CF seja quesito, os grupos precisam conscientizar suas direções, para que estas, no conjunto, atendam as demandas do grupo.

"Eu sou amplamente favorável, mas eu sou só 1. É preciso que os outros presidentes também sejam, pelo menos a maioria".


"Estamos em um momento totalmente diferente no carnaval de Poa onde o carnaval só vai evoluir se todos pensarem e agirem da mesma forma, com o mesmo objetivo, não tem como cada um puxar para um lado".


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Mario Terra (coreógrafo): "Caiu a qualidade de dança nas escolas de samba. Há uma desvalorização das danças afro como um todo".


"Precisamos conversar com outras esferas. As pessoas precisam conhecer o trabalho. Não dá pra cobrar apenas dos presidentes que têm milhares de coisas para resolver. Eu acho que tem que ser quesito pois o espetáculo precisa ter mais atrativos".


Deixaram de investir em pessoas e passaram a investir barracão. Foi um momento do carnaval, mas que agora não tem mais como se manter dessa forma.

"É preciso que o movimento (carnaval) esteja mais unido na causa. Não pode ser restrito apenas à comissão. É preciso ter também um entendimento político da cultura carnaval".


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Edison Garcia (coreógrafo): "Porto Alegre foi pioneira em comissão de frente coreografada no país, com o Império da Zona Norte nos anos 80. E hoje estamos atrás de Rio, São Paulo no sentido de valorização do quesito".


"Um dos motivos que deve assustar os presidentes é o medo da comissão de frente cobrar cachê, do coreógrafo, dos bailarinos. Mas acredito que isso não é foco do movimento".


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Guaraci Feijó (carnavalesco): "É fundamental que se tenha amor pela entidade. E do outro lado do balcão, é preciso que se tenha honestidade. A comissão de frente é a síntese da proposta do enredo, deveria ser quesito sempre. Mas a comissão de frente começou a se vender e aí também deixou de se valorizar, não digo financeiramente, mas na sua identidade. Não há grupos ligados diretamente na sua escola".


"Todas as escolas de samba deveriam formar sua comissão de frente, seja criando um projeto com algum coreógrafo que auxilie nesse sentido. É fundamental que se tenha uma identidade dos grupos com a escola, de formação dos seus quesitos dentro da escola.

Dar oportunidade do quesito estar incorporado na gestão, participando inclusive da captação de recursos para custear as despesas e o investimento".


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Alzemiro da Silva, Miro (presidente da Império do Sol): "O período que teve muito dinheiro foi quando acabou com o carnaval. Comissão de Frente deixou de ser quesito porque as escolas de samba, não os presidentes, estavam ficando reféns de alguns grupos de comissão".


O que é valorizar? É pagar? Se for dinheiro, eu vou dar condições para buscar esse dinheiro. Mas eu não posso ir sozinho. A Comissão de Frente precisa ir junto.

"Onde estão os amantes do carnaval? Nós temos como ter todos os quesitos dentro da escola, desde que o quesito queira trabalhar. Formar parcerias onde tanto a escola quanto o quesito sejam beneficiados com o trabalho. Criar uma gestão participativa. A CF tem que estar presente dentro das escolas de samba".


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Anderson Chagas (presidente Ajucepergs): "A União das Comissões de Frente chegou para dar voz às comissões de frente, um grupo que representa o segmento. Agora vocês precisam fazer política do convencimento dos seus presidentes para que eles votem à favor. Está mais do que provado que o que vocês querem é a valorização do trabalho de vocês. A supervalorização prejudicou o carnaval e quem pagou foi a comissão que deixou de ser quesito".

"Enquanto presidente da associação de jurados, eu não posso exigir nada. Eu sou contratado pela organização do carnaval para trabalhar dentro daquilo que eles pedem. Não tenho como impor nada".


"Quanto à avaliação, o manual de Porto Alegre adotou material de São Paulo para base de julgamento, de uma forma geral. É possível pegar o quesito Comissão de Frente e fazer uma adaptação do que se faz em São Paulo para o carnaval de Porto Alegre".


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Carla Rosane Ferro (presidente Saímos Sem Querê - Arroio do Sal): "Comissão de Frente é quesito na cidade. A escola não tinha, contratou de fora e trabalhou no investimento. Nós conseguimos fazer parceria com a comunidade. O recurso que vem da prefeitura não é suficiente, basicamente para compra de material".


Está faltando aqui em Porto Alegre fazer carnaval na comunidade. Comprar carnaval sai caro e afasta as pessoas de dentro da escola. Construir carnaval atrai as pessoas. Trabalhar o quesito comissão é também atrair as pessoas para dentro da escola.

"Porto Alegre vai se reconstruir. Se continuar se comprando, talvez não. A comissão de frente é o início dessa reconstrução. A Comissão de Frente precisa ter identificação da escola, integração". 


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Thyago Cunha (coreógrafo): "Eu falo da valorização do artista. Há dois olhares dentro desta valorização: sociocultural e política. Porto Alegre não é turística, sendo assim, é difícil trazer pessoas para o nosso meio. O carnaval virou um espetáculo, uma festa".


Por que essas pessoas que eram do carnaval foram saindo? Não basta só amar a dança. Tem que ter algo a mais. Tem que se olhar também como profissional.

"Quando a gente pensa comissão de frente, quesito ou não, eu vejo duas visões: não quesito, desvalorização. Quesito, tu agrega pessoas, valoriza, engrandece o espetáculo. Quando somos vistos e representados, nós somos acolhidos".


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Nilton Pereira (presidente Bambas da Orgia): "O Bambas é parceiro e favorável ao quesito comissão ter pontuação na avenida".


As pessoas não acreditam no carnaval e nem em quem conduz o carnaval, foi aí que nos afundamos. E hoje, nós, presidentes, estamos tentando mudar isso, dando a cara a tapa.

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Roberto Soares (Dir. carnaval Império do Sol / Presidente da Assoc. Dir. Harmonia Geral): "O papel da direção de Harmonia Geral dentro da escola de samba e a relação com a Comissão de Frente".

"A má gestão está afastando os verdadeiros carnavalescos de dentro das escolas de samba".


"A Harmonia Geral faz parte do sucesso da comissão de frente na avenida. A vaidade atrapalha a evolução do trabalho. A Comissão de Frente vai além da representação da proposta do desfile. Ela é peça chave na evolução da escola, precisa estar totalmente conectada e integrada à todas as pertinência da avaliação".


Na prática, a comissão já é avaliada, mesmo que dentro de outros pontos no desfile. Vocês não dão pontos para a escola, mas os erros de vocês tiram pontos.

"Não é interesse dos presidentes (que seja quesito de pontuação) mas nós podemos nos unir e buscar os objetivos na base da união. É também preciso buscar qualificação. Não se pode colocar a responsabilidade de um quesito nas mãos de uma pessoa que não é apta".


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Gil Colares (coreógrafo): "Que grupo é esse que se reúne por meses e meses para fazer um trabalho de Comissão de Frente, com responsabilidade imensa? Isso é amor pelo carnaval".


A Comissão de Frente é um espetáculo à parte que a escola apresenta. Ninguém na avenida perde o trabalho da comissão porque todo mundo sabe que ali existe uma preparação, um trabalho de inovação, surpresa. É um coisa nova a cada ano, diferente da escola que passou antes.

"Com esse movimento que a gente está criando e se unido para que de fato seja um quesito de pontuação, tem tudo para acontecer, para dar certo. O carnaval está esvaziando e refletindo o que tem acontecido no cenário cultural do país como um todo. Há um esvaziamento da cultura. Há uma opressão, sobretudo, à cultura negra. É preciso se orientar com relação a isso e juntar forças para mostrar que é preciso valorizar".


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Jarbas Ribeiro (costureiro): "É preciso estudar o enredo para que seja construída e fundamentada a fantasia, também tenha funcionalidade".


"Na falta de recursos, eu tenho que adaptar a fantasia da escola para que não falte elementos que traduzam a proposta da fantasia. Quando a gente trabalha com amor, a gente se dedica".


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Eduardo Yohaness (coreógrafo): "O desfile de uma escola de samba não é apenas uma festa. Ele É um produto e precisa ser vendido".


"Comissão de Frente virando quesito altera toda a estrutura de desfile no carnaval. Paradas técnicas podem ser necessárias. O desfile das escolas de samba de Porto Alegre está artisticamente engessado. A comissão pode alterar a forma de venda do desfile das escolas de samba".


O novo fôlego pode surgir a partir do novo atrativo das Comissões de Frente e dos desfiles. As falas de carnaval são sempre cheias de amor. Mas quando se fala de dinheiro, não é amor, é mercado.

"A capacitação não passa apenas pelo coreógrafo e grupo. Toda a escola precisa estar organizada, preparada para aceitar esse novo formato de desfile".


"Deixem o artista criar, dentro da quadra e na avenida".


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Zezinho (vice-presidente Academia de Samba Puro): "Quantos resultados teriam mudado se as comissões de frente fossem quesito?".


É preciso dar oportunidade para que as pessoas aprendam sobre escola de samba.

"Levamos 15 anos para ter uma conversa deste porte. Em nome da Academia de Samba Puro, a luta de vocês é a nossa luta".


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Clóvis André Silva (produtor cultural): "É preciso separar a direção administrativa da administração artística".


O carnaval precisa ingressar nos caminhos de articulação política para sustentar outros pilares fundamentais hoje. Acessar programas de financiamento.

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Vagner Moraes (coreógrafo): "As Comissões de Frente precisam aparecer mais durante o ano, não apenas no carnaval".


Não há retorno do trabalho que você apresenta. Há um trabalho de pesquisa e fundamentação coreográfica. As escolas não apresentam um feedback do que foi feito. As escolas não se importam com o que foi realizado.

"A universidade não fala sobre carnaval. Por ser do carnaval, há um olhar preconceituoso por parte da dança na universidade, como se, por ser do carnaval, não há conhecimento dos conteúdos clássicos da dança. Inserir a dança do carnaval dentro da universidade".

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Um documento deve ser apresentado ao conselho de presidentes que está organizando o próximo carnaval, com todas as demandas levantadas no encontro. O objetivo é formalizar a comissão de frente como quesito de pontuação já para o carnaval de 2020.

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